Como curar a ressaca literária?

Ressaca literária: homem atolado de livros

É muito provável que você já tenha comprado um livro e, ao dar início à leitura, ficado empacado(a) nas primeiras páginas. Também é provável que tenha persistido e tentado outros títulos, mas a falta de vontade de continuar a lê-los se manteve imperativa. 

Bem, a boa notícia é que essa falta de interesse pode ser momentânea e estar enquadrada no que chamamos de ressaca literária. O problema não está em você ou nos livros que você tentou ler. 

Você pode simplesmente estar saturado depois de muitas leituras sucessivas, ou ter lido uma obra incrível que te impactou especialmente, solapando o “encantamento” das que tentou ler depois.

De qualquer forma, não se preocupe. A ressaca literária tem “cura” e estamos aqui para apresentar algumas dicas que podem ajudá-lo(a) a tornar este momento passageiro.

Continue a leitura!

Como saber se estou de ressaca literária?

A ressaca literária pode ser engatilhada por diferentes fatores. Alguns exemplos são:

  • Dificuldade de contração;
  • Desinteresse;
  • Sobrecarga de atividades;
  • Conflitos emocionais; entre outros.

Os “sintomas” variam de pessoa para pessoa, assim como a “cura”. Por isso, vamos indicar diferentes estratégias que você pode testar se estiver passando por um momento de ressaca literária. A ideia é que consiga explorar algumas possibilidades e descobrir o que funciona para você.

A complexidade da leitura

No livro Práticas de leitura e escrita, Ernani Terra, professor de Língua Portuguesa e Literatura, explica o seguinte:

“Ler, em sentido amplo, significa ‘construir sentido’. Só podemos falar que alguém leu um texto se foi construído um sentido para o leitor. Isso significa que ler está além de decodificar, embora a decodificação seja pré-requisito para a leitura”. (destaques nossos)

O autor vai além, dizendo que ler é um aprendizado contínuo, que se estende por toda a vida. Para ele, a leitura possui uma função “retroalimentadora”. Ou seja, quanto mais lemos, leitores mais competentes nos tornamos.

“O autor, ao produzir o texto, tem em mente um sentido que pretende transmitir ao leitor; este, ao ler o texto, vai (re)construir o sentido a partir de seus conhecimentos prévios e das pistas que o autor deixou espalhadas na superfície do texto. O sentido, portanto, não está no texto, mas é uma (re)construção do leitor na interação, por isso leitores diferentes construirão sentidos diferentes para um mesmo texto”, explica.

Essas reflexões são importantes porque deixam claro que a leitura é uma atividade que não depende unicamente de disposição. Estamos inseridos nos mais diferentes contextos e possuímos as mais diversas vivências. 

Por isso, um amplo espectro de possibilidades se apresenta como causas de nossas ressacas literárias, sejam passadas ou futuras. Nesse sentido, o professor Ernani Terra indica que :

“ler é um processo interativo, isto é, na leitura, autor e leitor interagem. Diferentemente do que ocorre na interação face a face, em que os parceiros mobilizam as habilidades de falar e ouvir, na leitura, autor e leitor, em geral, não compartilham o mesmo espaço e tempo, ou seja, um texto escrito é produzido por alguém em uma determinada época e local, mas sua recepção ocorrerá em um tempo posterior ao da produção e quase sempre em local distinto daquele em que foi produzido. Ao ler hoje o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, tomamos contato com um texto que foi produzido na Espanha no século XVII”. (destaques nossos)

Ou seja, ler não é uma atividade passiva. Ela demanda, por exemplo, tempo, comprometimento, paciência e disposição. Então, nada de se culpar quando você estiver passando por uma ressaca literária. Seja gentil consigo mesmo(a) em tais momentos!

Leia também: Apresentando o Bookgram, a união entre Instagram e livros

O que causa uma ressaca literária?

Como falamos anteriormente, as causas da ressaca literária podem ser variadas. Não se empolgar diante de uma nova leitura após terminar um livro sensacional e estar sobrecarregado com outras atividades estão entre elas.

Contudo, não podemos deixar de falar também sobre a leitura nos ser apresentada como uma imposição ao longo da vida, o que nos afasta de sua apreciação como uma atividade prazerosa e revigorante.

No livro Ler, Pensar e Escrever, o mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Gabriel Perissé, discorre justamente sobre isso:

“Muitos de nós, porém, já fomos obrigados a ler por pessoas imbuídas de boa vontade, nossos professores, que por sua vez foram obrigados a nos cobrar essas leituras. 

A obrigação recaiu sobre Dom Casmurro de Machado de Assis, Iracema de José de Alencar, Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, O Cortiço de Aluísio de Azevedo, Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida, sobre Sagarana de Guimarães Rosa, Capitães de areia de Jorge Amado, sobre Vidas secas de Graciliano Ramos, ou sobre outros títulos, mas não muitos outros.

Resultado: a obrigação quase sempre redundou no oposto do que se desejava. O ato de ler tornou-se talvez um dever irritante e enfadonho. O livro se converteu em símbolo de constrangimento, estorvo e fracasso.

A educação formal gerou analfabetos funcionais que, brincava o poeta Mario Quintana, “são os que aprenderam a ler e não leem”. 

E completo: são os que aprenderam a escrever e não escrevem, são os que pensam com menos clareza e intensidade. Na escola, na faculdade, a obrigação ainda se faz valer, mas a prática demonstra que essa obrigatoriedade redunda, mais tarde, em afastamento e indiferença”. (destaques nossos)

O autor se responsabiliza, enquanto professor, por este tipo de reforço da leitura enquanto imposição aos estudantes. Ele reflete:

“Nós, professores, acabamos aceitando o papel de quem obriga, e o desempenhamos com as melhores intenções. Ansiamos fazer entender aos adolescentes, aos jovens e mesmo aos adultos que o hábito de ler é meio caminho andado para uma pessoa ser intelectual e socialmente saudável e, em todas as áreas, um profissional melhor, mais bem preparado. 

No entanto, muitos dos que alcançam e concluem o ensino médio ou o curso superior continuam alheios ou, o que é pior, avessos aos livros. Para o resto da vida, só lerão “de vez em quando”: manuais técnicos, o caderno de esportes do jornal, a revista mensal ilustrada, o best-seller do momento, ou qualquer coisa em que o interesse imediato pelo assunto supere a barreira de uma incapacidade quase física para ler textos exigentes e substanciais.

Ou será que, depois de tudo, esquecemos o quanto a leitura é motivadora em si mesma, sem necessidade de sermões e imposições?”. (destaques nossos)

Como se livrar de uma ressaca literária?

Livrar-se de uma ressaca literária é mais difícil do que se ver livre de uma ressaca literal. Brincadeira à parte, algumas estratégias podem ser colocadas em prática neste momento. 

Separamos 6 dicas a seguir. Acompanhe:

  1. Leia contos;
  2. Releia um livro que você ama;
  3. Busque recomendações;
  4. Olhe para a sua estante;
  5. Separe um momento do dia para ler;
  6. Leia um determinado número de páginas antes de desistir de um livro.

1. Leia contos 

Contos são textos curtos e que, por isso, não tomam muito do seu tempo. Se compra um livro de contos, você pode lê-los aos poucos e sem respeitar uma ordem, dado que são textos independentes.

Geralmente reunidos em antologias, os contos focam em poucos personagens e cenários, desenvolvendo o seu enredo em torno deles. O escritor Edgar Allan Poe acreditava que os contos precisam causar um impacto. Isto é, a sua leitura deve ser intensa e provocar um efeito sobre o leitor quando este chega ao final.

O melhor é que existem contos para todas as idades! Se você está passando por um momento de ressaca literária, ler contos pode ajudá-lo(a) a conectar-se novamente com o hábito da leitura sem que precise dedicar um grande esforço para isso.

2. Releia um livro que você ama

Ler um livro pela primeira vez é como juntar as peças de um quebra-cabeça. A cada página, você se depara com novas informações que, ao final, irão compor uma história por completo.

Já a segunda leitura proporciona uma experiência totalmente diferente. Você fica em uma posição mais confortável, de saber exatamente o que vai acontecer.

A doutora Shira Gabriel-Klaiman, professora de psicologia da Universidade de Buffalo, falou ao portal Yahoo Canadá sobre os benefícios da releitura dos nossos livros favoritos.

“Reler livros pode nos dar uma sensação de conexão com os personagens e os contextos sociais que compõem a história”, declarou. 

“Por exemplo, relendo os livros da série ‘Harry Potter’, você pode, a cada nova leitura, sentir uma conexão com Harry e seus amigos e sentir como se fosse parte daquele mundo mágico. E toda vez que você lê, essa conexão é reforçada. Reler pode ajudar a afastar a sensação de solidão e fazer você apreciar mais sua própria vida”, afirmou a especialista.

A releitura dos seus livros favoritos pode trazer o mesmo tipo de estímulo mental que rever os seus filmes preferidos ou viajar para lugares que você gosta. A associação de algo a memórias positivas facilita o processo de se deixar levar por um sentimento de satisfação e tranquilidade.

O desconhecido pode ser amedrontador, mesmo quando se trata de um livro. Por isso, em momentos de ressaca literária, recorrer a uma história que você já conhece e ama pode trazer conforto e ajudar a combater o estresse

Ajuda, até mesmo, a aumentar a sua autoconfiança. “Um livro não traz o risco de rejeição, e se você já conhece essa história, não terá que se preocupar com surpresas desagradáveis”, explica Gabriel-Klaiman.

Veja também: Leitura de qualidade em tempo otimizado: Conheça o Selo Expressa!

3. Busque recomendações

É possível que você tenha um conhecido ou parente que adora ler e está sempre atualizado sobre novos lançamentos. Procure conversar com esta pessoa sobre as leituras que ela tem feito. Pergunte quais os livros favoritos dela e que autores recomenda. Peça também que ela sugira um bom livro a você. 

Você também pode fazer buscas em ferramentas online. Plataformas como Skoob e Goodreads permitem que você não só controle os livros que leu ou está lendo, mas também faça as suas avaliações sobre as obras e também acompanhe as que foram criadas por outros leitores.

No Goodreads, por exemplo, é possível ainda descobrir novos títulos para ler a partir de listas com curadoria e listas de livros individuais detalhadas.

4. Olhe para a sua estante

Uma forma de escolher uma próxima leitura com potencial de ajudar você a sair de uma ressaca literária é revisitando o seu passado de leitor. Veja o que você leu nos últimos meses e quais foram os gêneros dessas obras.

Há leitores que gostam de se aprofundar em um determinado gênero, temática ou até nas obras de um autor específico. Então, se você leu um suspense policial da Agatha Christie e foi arrebatado pela história, pode explorar as outras dezenas de livros produzidos pela autora britânica.

Esta é uma maneira de se manter temporariamente na zona de conforto, durante um período em que você talvez precise de um pouco de distração descomplicada.

5. Separe um momento do dia para ler

Se ficar esperando a hora em que não terá nenhum outro compromisso para ler, você provavelmente deixará a atividade sempre em segundo plano. Por isso, uma dica é reservar um horário específico para se dedicar à leitura, todos os dias. 

Não precisa haver uma quantidade específica de tempo direcionada a esta atividade. A ideia é torná-la parte da sua rotina, com potencial de ser, até mesmo, um momento de escapismo no seu dia.

6. Leia um determinado número de páginas antes de desistir de um livro

Às vezes, podemos correr o risco de desistir de um excelente livro porque não gostamos do que foi apresentado nas primeiras páginas. Pois de início a leitura pode parecer complicada, sobretudo quando diz respeito a clássicos da literatura, e nos impedir de avançar.

Mas saiba que leva um tempo para que nos acostumemos à linguagem do narrador. Sendo assim, faça uma tentativa mais consistente. Estipule um número mínimo de páginas para ler antes de decidir se segue ou não em frente com um livro.

Quando chegar a este limite mínimo que você estipulou, será possível tomar uma decisão mais embasada, envolvendo-se ou não com a obra.

E, então, gostou das nossas dicas para momentos de ressaca literária? Continue acompanhando o nosso blog para mais novidades! Aproveite para conferir também o nosso artigo com indicações de podcasts de livros

Você também pode gostar

Artigos em destaque