Enamed: o que o exame nos mostra sobre a formação médica brasileira

A Profª Andrea Ramal analisa os dados do Enamed e aponta reflexões importantes sobre a qualidade da formação médica brasileira.
Enamed: médica em sala de cirurgia

Por muito tempo, a formação médica no Brasil foi tratada como um território quase imune a questionamentos mais duros. O senso comum ajudou a construir a ideia de que o simples fato de alguém concluir um curso de Medicina já seria, por si só, garantia de preparo técnico, responsabilidade e segurança. Questionar esse pressuposto soava como exagero — ou, pior, como ataque à profissão.

Esse conforto começou a ruir à medida que sinais de desgaste se tornaram difíceis de ignorar. A abertura acelerada de cursos, a expansão desordenada de vagas e a flexibilização silenciosa de critérios acadêmicos criaram um sistema que cresceu muito, mas cresceu mal. O problema não está apenas em algumas instituições ou em casos isolados. Ele é estrutural.

Neste artigo, olharemos para o Enamed como sintoma e evidência de um problema mais profundo na formação médica brasileira.

O que é o Enamed e o que seus números tornam visível

O Enamed é uma avaliação nacional aplicada a estudantes de Medicina em fase final de formação, com o objetivo de aferir conhecimentos e habilidades considerados essenciais para o exercício da profissão. Diferentemente das avaliações internas das faculdades, ele cria um parâmetro comum, externo e comparável.

Na edição realizada em 2025, o exame reuniu milhares de inscritos de todo o país, de instituições públicas e privadas. Esse volume importa; ele transforma o resultado em mais do que um retrato individual ou institucional. O que aparece são padrões, tendências e assimetrias que atravessam o sistema como um todo.

Quando uma avaliação desse porte revela fragilidades recorrentes, a pergunta relevante deixa de ser “quem foi mal” e passa a ser “o que estamos normalizando na formação”.

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O crescimento dos cursos e a ilusão de que mais é melhor

O Brasil hoje concentra um número de faculdades de Medicina superior ao de países como Estados Unidos e China. Esse dado, por si só, não seria um problema — se quantidade viesse acompanhada de critérios rigorosos de qualidade. Não foi o que aconteceu.

A expansão dos cursos ocorreu em ritmo acelerado, muitas vezes sem a infraestrutura necessária, sem hospitais-escola próprios e sem corpo docente suficiente para sustentar uma formação sólida. Criou-se um sistema desigual, no qual cursos de excelência convivem com instituições que operam no limite do aceitável, sem que isso produza consequências relevantes no processo de autorização ou manutenção dessas faculdades.

O Enamed torna essa desigualdade visível. Ele não cria a diferença entre os cursos, apenas deixa claro que ela existe e é profunda.

Quando a régua baixa vira política institucional

Outro ponto que o exame ajuda a escancarar é algo que já acontece dentro das faculdades, mas raramente ganha debate público: a fragilidade dos critérios acadêmicos. Em muitos cursos, avançar com domínio parcial do conteúdo deixou de ser exceção. Médias baixas são suficientes para aprovação, inclusive em disciplinas centrais da formação médica.

Essa lógica não nasce do acaso. Em um sistema altamente mercantilizado, reprovar custa caro. Manter o aluno custa menos. O resultado é uma espécie de pacto silencioso em torno do aprendizado mínimo — suficiente para seguir no curso, insuficiente para a prática segura.

Enquanto o estudante permanece avaliado apenas dentro desse sistema, a lacuna fica invisível. Quando ele enfrenta uma prova externa, padronizada e nacional, como o Enamed, a diferença aparece.

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A formação prática que ficou pelo caminho

A Medicina não se aprende apenas nos livros — por mais que livros de autores e editoras de referência sejam infinitamente melhores do que apostilas.

A formação médica exige contato real com pacientes, tomada de decisão em cenários incertos, erro supervisionado, repetição, amadurecimento clínico. Exige tempo e exige estrutura. O problema é que boa parte dos cursos abertos nos últimos anos não oferece nenhuma dessas coisas de forma consistente.

Faculdades sem hospitais-escola próprios tornaram-se regra, não exceção. Estudantes disputam campos de prática em hospitais públicos já sobrecarregados, com supervisão limitada e pouco espaço para aprendizado efetivo. Em muitos casos, a experiência clínica real é substituída por simulações, bonecos e cenários artificiais. Esses recursos têm seu valor, mas não sustentam sozinhos a complexidade do cuidado médico.

O resultado é um egresso que carrega o diploma, mas não carrega vivência suficiente. A chamada “quilometragem clínica” — essencial para decisões seguras — simplesmente não aconteceu. O Enamed, ao exigir raciocínio, e não apenas memorização, acaba evidenciando esse vazio.

Quando o problema chega ao sistema de saúde

Os efeitos dessa formação frágil não ficam restritos às salas de aula. Eles aparecem no cotidiano do sistema de saúde, muitas vezes de forma silenciosa, outras vezes de maneira explosiva. O crescimento acelerado de ações judiciais por erro médico e o aumento expressivo de falhas assistenciais não surgem do nada.

É evidente que a precariedade estrutural do sistema de saúde brasileiro pesa. Falta recurso, falta tempo, falta equipe. Mas seria intelectualmente desonesto ignorar que decisões clínicas inseguras também têm origem na formação. Um profissional mal preparado não se torna seguro apenas porque entrou em um hospital.

O Enamed ajuda a fazer essa conexão incômoda. Ele aponta que há lacunas antes mesmo do primeiro plantão, antes do primeiro atendimento autônomo, antes do primeiro erro que vira processo.

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O contraste que incomoda: Direito e Medicina

A incoerência do modelo brasileiro fica ainda mais clara quando se olha para outras profissões de alto impacto social. No Direito, o diploma não autoriza automaticamente o exercício profissional. O bacharel precisa ser aprovado no Exame da OAB, cuja taxa histórica de reprovação gira em torno de 70% a 80%.

A lógica é simples: concluir o curso não é o mesmo que estar apto para atuar. A sociedade aceita esse filtro como proteção mínima. Na Medicina, paradoxalmente, o raciocínio se inverte. Mesmo diante de evidências claras de desigualdade formativa, todos os diplomados recebem autorização imediata para cuidar de vidas.

O dado se torna ainda mais desconcertante quando se observa o acesso à residência médica. Em instituições de excelência, menos de 20% dos candidatos são aprovados. Ou seja, o próprio sistema reconhece que apenas uma parcela dos formados atinge o nível esperado de preparo. Ainda assim, todos podem atuar.

Avaliar não é punir, é assumir responsabilidade

É nesse cenário que a discussão sobre uma etapa obrigatória de avaliação para médicos recém-formados ganha força. A ideia de uma “OAB da Medicina” costuma gerar reações defensivas, como se avaliar fosse sinônimo de desvalorizar a profissão. Não é.

Avaliar é reconhecer o risco social envolvido. É admitir que o diploma, isoladamente, já não cumpre o papel de garantia mínima de competência. É proteger o paciente, mas também proteger o próprio médico de um sistema que o lança ao mercado sem preparo suficiente.

O Enamed não resolve o problema sozinho, mas cumpre uma função essencial: impede que a crise continue invisível. Ele força o debate, expõe desigualdades e rompe o conforto de um sistema que se acostumou a crescer sem olhar para as consequências.

O que o Enamed realmente nos obriga a enfrentar

O incômodo gerado pelo Enamed não está nos números em si, mas no que eles revelam. Revelam que a expansão do ensino médico foi tratada como política de acesso, não como política de qualidade. Revelam que critérios acadêmicos frágeis foram normalizados. Revelam que a formação prática foi sacrificada em nome da quantidade.

Ignorar esses dados é escolher manter um modelo que transfere o risco para a sociedade. Enfrentá-los exige decisões difíceis: fechar cursos ruins, endurecer critérios, investir em estrutura, aceitar que nem todo diploma pode continuar valendo o mesmo.

Quando a vida está em jogo, o custo da omissão é alto demais.

Créditos

Este artigo foi elaborado a partir de reflexões e insights da educadora Andrea Ramal, cuja análise crítica sobre avaliação, qualidade do ensino superior e responsabilidade social contribui de forma decisiva para o debate sobre a formação médica no Brasil e o papel do Enamed nesse contexto. Confira agora: benefícios da leitura para a saúde mental!

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