Você já parou para pensar em quantos pensamentos passam pela sua mente ao longo de um dia e em como eles podem influenciar o que você sente e a forma como reage às situações?
A saúde mental é uma questão cada vez mais presente: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 1 em cada 7 pessoas no mundo vivia com algum transtorno mental em 2023. Compreender melhor os processos mentais pode ser um passo importante para reconhecer padrões de pensamento, emoções e comportamentos.
Mas como consciência, pensamentos e emoções se relacionam? E o que a psicologia tem a dizer sobre a construção desses processos?
Segundo a Psicologia, o que é consciência?
A consciência é um dos conceitos mais complexos estudados pela Psicologia e não possui uma definição única.
Diferentes correntes psicológicas desenvolveram maneiras próprias de compreender como percebemos a realidade, reconhecemos nossos estados internos e organizamos nossas experiências.
Na perspectiva histórico-cultural de Lev Vigotski, a consciência não deve ser entendida como algo isolado ou independente do mundo. Ela se desenvolve na relação do indivíduo com a realidade, com outras pessoas e com os sistemas simbólicos construídos socialmente, especialmente a linguagem.
Em seu artigo, a pesquisadora Gisele Toassa analisa o conceito de consciência na obra de Vigotski e identifica três sentidos fundamentais: a consciência como processo de tomada de consciência da realidade externa e interna; como característica de conteúdos e processos psicológicos; e como um sistema psicológico que articula diferentes funções.
A linguagem ocupa um papel importante nessa construção. Para Vigotski, as palavras e os signos não servem apenas para comunicar algo a outras pessoas: eles também participam da organização do próprio comportamento e da maneira como o indivíduo compreende a si mesmo. Assim, tomar consciência de uma experiência envolve também poder reconhecê-la, significá-la e integrá-la à própria experiência.
Essa perspectiva ajuda a entender por que consciência, pensamentos e emoções não precisam ser analisados como elementos separados. Eles fazem parte de processos psicológicos que se relacionam continuamente, influenciando a forma como cada pessoa percebe, interpreta e responde ao mundo.
Como os pensamentos são formados e por que temos pensamentos automáticos?
Pensamentos são produtos cognitivos que envolvem ideias, imagens, lembranças, interpretações e representações mentais. É por meio deles que atribuímos significado às experiências e interpretamos o que acontece ao nosso redor, a partir de conhecimentos, vivências e percepções construídas ao longo da vida.
Nem todos esses processos chegam à consciência de forma clara. Alguns pensamentos surgem rapidamente, quase sem que percebamos, e podem influenciar a maneira como nos sentimos e agimos. Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), eles são chamados de pensamentos automáticos. Segundo Judith Beck (2020), esses pensamentos podem aparecer espontaneamente diante de determinadas situações e estão relacionados às respostas emocionais e comportamentais que apresentamos.
Um pensamento automático pode surgir, por exemplo, diante de uma situação cotidiana e ser acompanhado por uma emoção sem que a pessoa perceba imediatamente a interpretação que passou pela sua mente. Por isso, identificar o que foi pensado, além do que foi sentido, é uma etapa importante para compreender esses padrões.
Quando observados com mais atenção, os pensamentos automáticos também podem revelar distorções cognitivas, formas recorrentes e enviesadas de interpretar situações. Entre os exemplos estão a tendência a interpretar acontecimentos em termos extremos ou a presumir o que outra pessoa está pensando.
Na TCC, reconhecer esses padrões permite examinar de maneira mais consciente a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos.
O que são emoções e como influenciam o comportamento?
As emoções fazem parte da experiência humana e estão relacionadas à forma como respondemos a acontecimentos que consideramos relevantes. Para a American Psychological Association(APA), elas envolvem diferentes componentes, incluindo experiências subjetivas, respostas fisiológicas e comportamentos.
Por isso, sentir uma emoção não corresponde apenas a uma experiência interna. Ela pode envolver diferentes respostas ao mesmo tempo:
- Sensação subjetiva: a experiência de sentir medo, alegria, tristeza, raiva ou outras emoções.
- Resposta fisiológica: alterações no organismo, como mudanças na frequência cardíaca, respiração e tensão muscular.
- Expressão: manifestações observáveis da emoção, como expressões faciais, postura e tom de voz.
- Comportamento: respostas ou tendências de ação associadas ao estado emocional.
A forma como interpretamos uma situação também participa desse processo. Por isso, o mesmo acontecimento pode despertar emoções diferentes em pessoas diferentes. Pesquisas sobre avaliação emocional indicam que a maneira como uma situação é interpretada está relacionada à emoção experimentada e às estratégias utilizadas para lidar com ela.
Essa relação ajuda a compreender por que pensamentos, emoções e comportamentos estão conectados. Um pensamento pode intensificar determinada emoção, enquanto uma emoção pode influenciar a maneira como interpretamos uma situação e a resposta que damos a ela.
Qual é a relação entre pensamentos, emoções e saúde mental?
Pensamentos, emoções e comportamentos estão mais conectados do que pode parecer. Uma situação pode despertar determinado pensamento, que, por sua vez, influencia o que sentimos e a maneira como reagimos. E essa relação também acontece no sentido contrário: uma emoção intensa pode mudar a forma como percebemos e interpretamos o que está acontecendo.
Essa interação não fica restrita à mente. A jornalista Maiara Ribeiro, em artigo publicado, explica que as emoções também provocam respostas no corpo. Em momentos de estresse, por exemplo, é comum perceber alterações como aceleração dos batimentos cardíacos, tensão muscular e mudanças na respiração. Quando esse estado se prolonga, ele pode repercutir na saúde física
É possível visualizar essa conexão de forma simples:
| Situação → pensamento → emoção → comportamento |
Mas esse caminho não é uma sequência rígida. O que sentimos também pode influenciar os pensamentos que surgem depois e a forma como passamos a enxergar uma situação.
Observar o que aconteceu, o que pensamos, o que sentimos e como reagimos pode ajudar a reconhecer padrões que muitas vezes passam despercebidos no dia a dia.
Mais do que separar mente e corpo, compreender essa relação ajuda a perceber como diferentes aspectos da experiência humana estão continuamente conectados.
O que é a Teoria da Inteligência Multifocal de Augusto Cury?
Augusto Cury, médico psiquiatra, professor, pesquisador e escritor brasileiro, desenvolveu a Teoria da Inteligência Multifocal como uma proposta para compreender a construção dos pensamentos, das emoções, da memória e da consciência. A teoria foi apresentada inicialmente em sua obra Inteligência Multifocal e vem sendo desenvolvida pelo autor ao longo de sua produção dedicada ao funcionamento da mente.
O termo “multifocal” está relacionado à ideia de que a construção do pensamento não depende de um único processo. Na formulação de Cury, diferentes mecanismos participam dessa dinâmica, incluindo memória, interpretação, emoção e consciência.
Entre os conceitos centrais apresentados pelo autor estão:
- Fenômeno RAM: registro automático das experiências, pensamentos e emoções na memória.
- Gatilho da memória: estímulos que podem iniciar processos de interpretação e ativar determinados registros.
- Janelas da memória: áreas da memória acessadas em determinado momento e que participam da construção dos pensamentos.
- Âncora da memória: elemento relacionado à carga emocional dos registros e à direção da leitura da memória.
- Autofluxo: processo descrito por Cury como responsável por percorrer conteúdos da memória e participar da construção de pensamentos, sentimentos, imagens e fantasias.
- Eu: consciência que, segundo a teoria, pode exercer uma função de gestão sobre pensamentos e emoções.
Um trabalho publicado na Revista de Trabalhos Acadêmicos – Universo apresenta a Teoria da Inteligência Multifocal como uma proposta voltada à compreensão da construção do pensamento e de aspectos intelectuais e emocionais.
A proposta de Cury oferece, assim, uma leitura própria sobre a relação entre memória, pensamentos, emoções e consciência. Esses conceitos também estão no centro de Tratado da Construção Multifocal da Consciência, dos Pensamentos e das Emoções, obra em que o autor aprofunda essa abordagem.
Como desenvolver mais controle sobre os próprios pensamentos?
Não é possível escolher todos os pensamentos que surgem, mas é possível desenvolver uma relação mais consciente com eles. Algumas atitudes podem ajudar a perceber padrões, direcionar a atenção e responder de maneira menos automática ao que passa pela mente.
1.Observe o que ocupa sua mente
Prestar atenção aos pensamentos recorrentes ajuda a identificar preocupações, interpretações e padrões que podem passar despercebidos no dia a dia. O primeiro passo não é tentar eliminá-los, mas reconhecê-los.
2.Questione pensamentos automáticos
Nem todo pensamento corresponde necessariamente aos fatos. Quando uma ideia surgir de forma rápida, vale observar: o que aconteceu de fato? Existem outras formas de interpretar essa situação? Na Terapia Cognitivo-Comportamental, identificar e avaliar pensamentos automáticos é parte importante desse processo.
3.Exercite a atenção e a concentração
Leitura, aprendizado e atividades que exigem concentração podem ajudar a direcionar a atenção. Criar momentos de pausa e tranquilidade também pode favorecer uma observação mais cuidadosa dos próprios pensamentos.
4. Cuide da mente e do corpo
Sono adequado, atividade física, alimentação equilibrada e momentos de descanso fazem parte dos cuidados com a saúde mental. Como aponta André Araújo, hábitos relacionados ao cuidado com o corpo e à organização da rotina também podem contribuir para uma relação mais saudável com os pensamentos.
Uma nova perspectiva sobre a construção da consciência
Em Tratado da Construção Multifocal da Consciência, dos Pensamentos e das Emoções – Vol. 1, Augusto Cury apresenta a Teoria da Inteligência Multifocal, resultado de décadas de estudos dedicados aos processos que participam da construção dos pensamentos, da consciência e das emoções.
A obra investiga questões fundamentais sobre a mente humana, como a origem dos pensamentos, o papel da memória, a formação das emoções e a construção da identidade. Com uma abordagem crítica e interdisciplinar, Cury também revisita conceitos da psicologia, da educação e das ciências humanas para discutir criatividade, autonomia, liberdade de escolha e desenvolvimento pessoal.
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