Entrevista: Carol Shinoda e o Propósito de Vida

Carol Shinoda: Em palestra

No nosso podcast “Bom Saber” conversamos com renomados autores sobre temas como Direito, Negócios e Desenvolvimento Pessoal.

Em um de nossos episódios, convidamos Carol Shinoda para falar sobre o tema de seu recém-lançado livro, chamado Propósito de vida: Um guia prático para desenvolver o seu

Neste artigo você encontra uma transcrição das principais partes do podcast. Não deixe de ler! Se quiser escutar a conversa na íntegra, sinta-se à vontade para apertar o play logo abaixo!

Quem é Carol Shinoda?

Nossa convidada Carol Shinoda é Doutora em administração pela USP e autora do livro “Propósito de vida: Um guia prático para desenvolver”.

Na entrevista a autora fala, de forma descomplicada, sobre o que é necessário para desvendar nossas motivações e forças!

Como você se encontrou no Desenvolvimento de Pessoas?

Carol Shinoda: Eu acho que esse encontro aconteceu por acaso, como muitas coisas acontecem na vida.

Na verdade, eu comecei minha trajetória profissional em administração, gestão de projetos e consultoria. Quando fui fazer mestrado — muito por influência do meu pai, que é professor — eu queria fazer uma atividade remunerada. Fui fazer monitoria em uma MBA de gestão de pessoas, que era a única vaga disponível.

No começo eu falei “Ah, não. RH. Eu não gosto de RH!”. Só que eu comecei a ter as aulas e me apaixonei por aqueles temas. Eu não conhecia o desenvolvimento de pessoas. Para mim, RH era recrutamento e seleção, e eu não me identificava tanto com estes temas. 

Então fui fazer uma formação mais extensa em coaching pelo Instituto EcoSocial, e nisso eu descobri o poder do Desenvolvimento Humano. E também descobri que eu não sabia nada sobre isso. Então, eu acho que esse foi um momento em que a vida me encontrou.

Às vezes, tem coisas que a gente ativamente vai atrás, busca, se estrutura — vamos falar disso daqui a pouco. Mas também há coisas que vêm da vida.

E quanto mais nos conhecemos, acho que vamos identificando o que vem de fato da vida, no que queremos embarcar, no que desejamos que faça parte da nossa história, e o que não faz sentido, o que vamos deixar passar. 

Acho que essa foi uma oportunidade que a vida me trouxe, que eu percebi que funcionou comigo. Então, eu embarquei e cada vez mais fui me desenvolvendo e tentando contribuir com o desenvolvimento de outras pessoas.

E foi isso que te levou depois a tornar esse tema objeto de estudo, inclusive academicamente? 

Carol Shinoda: Exatamente. Porque no mestrado eu ainda estava muito ligada ao aspecto mais técnico, então eu estudei Gestão do Conhecimento. Mas fui me transformando e acabei levando esse tema de uma forma mais humana

Mas então, no doutorado, eu tive oportunidade de unir Gestão de Projetos e Desenvolvimento Humano, e falar de Projetos de Vida e Propósito. E aí foi muito, muito gostoso porque eu fiz uma pesquisa prática em que eu pude entender o seguinte:

Quais eram os aspectos que facilitavam e dificultavam a descoberta, pelas pessoas, de sua verdadeira identidade, e como querem contribuir com suas vidas?

A partir disso nasceu o livro. Uma forma mais simples, vamos dizer, de trazer esse conhecimento a serviço das pessoas.

Então, eu acho que tem coisas que a gente vai costurando ao longo da vida. Achamos que é um determinado caminho que devemos seguir, e aí, de repente, vem uma coisa de fora. Refazemos essa decisão e, lá na frente, quando olhamos para trás nós conseguimos identificar todo um sentido. Então conseguimos conectar os pontos

O Steve Jobs tem um discurso de formatura bem legal sobre isso! Às vezes, quando estamos na caminhada, fica difícil entender a lógica de algumas coisas.

Mas, conforme nos conhecemos melhor e olhamos para trás, revendo nossa trajetória, conseguimos fazer essa conexão. Então, acho que até agora fez todo sentido, né?

Mas, em vários momentos ao longo do caminho eu me senti bem perdida. Então, aos pouquinhos a gente vai conectando os pontos. 

Você deve ter ouvido inúmeras vezes a pergunta: “Mas, você acha que todo mundo tem um propósito? Você acha que todo mundo está aqui por um objetivo maior?”.

Qual é a sua resposta quando você ouve isso das pessoas? 

Carol Shinoda: Eu acho que propósito de vida é algo que depende muito de crenças. E crença cada um tem a sua, e não dá pra dizer se está certo ou que está errado.

Então, eu também não posso dizer: “sim, cada pessoa tem um propósito”. Mas, eu acho que cada pessoa pode ter um propósito. Isso eu acredito que sim. 

Tanto nas pesquisas acadêmicas quanto na vida prática, nós percebemos que quem atribui um sentido pra sua vida tem inúmeros benefícios. Desde se sentir mais feliz ou com maior bem-estar, com sentimento maior de gratidão, de generosidade, saúde física, saúde mental. 

Há estudos mostrando que quem tem uma clareza do seu propósito se sente menos angustiado, menos ansioso. Tem menos propensão a depressão. Então, sem dúvida vale a pena refletirmos sobre isso, porque há muitos benefícios quando temos essa clareza.

Há pessoas que acreditam que não existe mesmo um sentido para a vida. Mas acabam atribuindo um sentido no dia a dia; tem gente que chama o propósito por outros nomes, e tudo bem!

A diferença entre vida com propósito e vida com significado

Eu só acho que vale diferenciarmos um pouco, porque eu vejo muita confusão, em minhas conversas e pesquisas, entre uma vida com propósito e uma vida com significado. Ou uma vida com sentido e significado. 

Sentido, que é o propósito, tem a ver com algo que vamos fazer no futuro, que a gente constrói a serviço, mas no futuro.

Já uma vida com significado tem a ver com vivenciarmos os valores no momento presente. Muitas pessoas vivem uma vida significativa. 

Estar com a família, buscar se conectar com a natureza, comer comidas gostosas, sabe essa coisa que enche o coração? Que você fala “ai, que delícia”?

Nesses casos, eu vivo uma vida com propósito? Não necessariamente.

Você pode experimentar uma vida com muito significado no seu dia a dia, vivenciando seus valores, mas não necessariamente você está construindo algo no futuro, conectado com algum legado que você queira deixar. 

São dimensões diferentes. Também existem pessoas que só vivem olhando para esse futuro. Para o que querem conquistar, construir, mas esquecem de se abastecer com momentos significativos.

Eu acho que essas duas dimensões são muito bem-vindas na nossa vida, estando juntas. Eu acho que esse equilíbrio,  a consciência de que cada um tem a sua dose, é muito positivo para o nosso desenvolvimento. 

Em seu livro há uma seção, logo no início, que fala sobre alguns mitos e alguns preconceitos que as pessoas têm sobre este tema, com base em lugares comuns.

Como você reflete sobre essas percepções que as pessoas têm, e como isso interage com seu desenvolvimento? 

Carol Shinoda: Eu acho que nós somos seres humanos e a gente tem medos. É frequente que, a partir desses medos, criemos proteções, defesas.

E os mitos, às vezes, servem como defesas. Servem para que adiemos reflexões difíceis. Então, por exemplo, eu vejo muitas pessoas dizendo assim: “ah, propósito de vida é só pros iluminados” — que é um dos mitos — ou “eu sou só uma pessoa comum”.  

E então as pessoas se colocam nesse lugar de “não preciso brilhar”. Por quê? Porque é difícil também encararmos nosso brilho, a nossa potencialidade.

Outro mito é que o “propósito de vida é só para ricos”. Então, enquanto eu não for rica, eu não posso pensar em como contribuir. Eu acredito que esses mitos tentam, de alguma forma, nos proteger.

Tentam trazer calma e dizer: “Olha, não é para você. Fica tranquilo, fica tranquila”. Mas, também eles, muitas vezes, em excesso, formam barreiras ao nosso pensamento.

E o propósito é possível para cada um de nós. Então, acho que devemos equilibrar um pouquinho essas dimensões, porque é igual aquele anjinho e diabinho que falam na nossa orelha. Acho que os diabinhos estão lá como formas de proteção também.

Então o mito não é algo assim “ah, vamos parar de pensar nos mitos”. Mas, sim, vamos entender o que está por trás desse mito. 

Não existe o Nirvana dos propósitos. É uma construção contínua. Mas, às vezes a gente se apega a isso porque é muito gostoso pensar que existe um lugar assim. Em que a gente possa relaxar, um lugar que é quentinho e você fala “ah, cheguei”.

Mas, na realidade, isso não existe. Estamos sempre nos construindo. Só que quando temos, sim, uma clareza do nosso propósito, isso traz um senso de realização. E traz uma maior serenidade. Inclusive, para momentos difíceis.

Fernando Penteado (Apresentador): Para contextualizar o leitor sobre alguns dos mitos trabalhados pela autora:

  1. O primeiro é que “o propósito é apenas para os iluminados”;
  2. O segundo é que “o propósito tem que ser algo grandioso”,
  3. O terceiro que “o propósito é só para os ricos”,
  4. O quarto pressupõe que “propósito é algo único para toda vida”. Ou seja, você encontra um propósito e ele não se transforma.

Você pode comentar sobre esse último mito, Carol?  A respeito do propósito “único”?

Carol Shinoda: Muitas pessoas acreditam que o propósito é único para toda a vida. Inclusive, recentemente eu estava conversando com um amigo meu e ele disse “agora eu encontrei meu propósito. Agora acho que cristalizou” e eu falei “Ah, será?”. 

Por quê? Em muitas vezes, vivemos coisas um tanto mágicas, fantásticas, que fazem a gente se abrir para novas possibilidades. São desafios que, muitas vezes, trazem situações difíceis e nos fazem questionar se existe um sentido pra vida. E isso é um processo dinâmico.

Então falamos “não existe sentido nenhum pra vida” e passamos a sonhar. Uma outra característica é que a gente vira um sonhador.

Então o que costuma acontecer é que definimos uma coisa muito grande que queremos, mas não fazemos nada na prática. Aí começamos a fazer um monte de coisa, mas sem um sentido mais profundo, que é uma outra categoria de relação com propósito. 

E pode ser que a gente fale “agora eu dei sentido, agora eu me sinto novamente com propósito”. Então, isso se transforma. Mesmo quem acha que encontrou um propósito, está naquele momento gostosinho, quando se abre pra vida é natural que a gente questione, evolua. O propósito evolui com a gente.

Fernando Penteado (Apresentador): E os últimos dois mitos trabalhados são:

  • Propósito é algo voltado pro sucesso individual” e “propósito é a solução para todos os problemas”, que você comentou um pouquinho.

E, falando sobre líderes, um movimento que vemos acontecendo com muita força nos Estados Unidos, mas também aqui no Brasil. Já existem, inclusive, notícias sobre esse movimento que está sendo chamado de Grande Renúncia.

Muitos jovens adultos, que estão hoje com as suas carreiras bem estruturadas, etc., estão deixando seus empregos, buscando outros estilos de vida e outras formas de existir. Seja mudando completamente a vida ou apenas mudando de empresa. Mas, muitas pessoas estão saindo desses ambientes.

Como o autoconhecimento pode contribuir para esse tipo de decisão? E qual o papel, também, das empresas e dos líderes nisso?

Carol Shinoda: Esse movimento fez muitas empresas repensarem suas práticas. Porque é claro, a gente não pode se iludir dizendo que todo mundo tem a possibilidade de fazer isso. E acho que fica um alerta, também, de como nos preparamos para ter mais liberdade de escolha.

Então por exemplo: quando fazemos reservas financeiras, ou reservas de conhecimento quando estudamos, fazemos cursos, obtemos certificações, etc. Nesses processos, vamos criando reservas, contatos…

São coisas que temos guardadas e, às vezes, nem chegamos a utilizar, mas podemos precisar um dia. Eu acho que se não nos preparamos, ficamos com menos espaço de flexibilidade para tomar decisões

Então isso não é pra todo mundo, para começar. Tem muitas pessoas hoje que não tem condição de pegar e falar “ah, estou infeliz no meu trabalho, vou largar tudo”. E eu pago aluguel amanhã como? Alimento minha família como?

Mas, às vezes a gente vai construindo isso. É possível, mas a gente tem que construir. 

E do ponto de vista das organizações, eu acho que a organização é formada por pessoas, não existe um ser, um ente organização. Existe um conjunto de pessoas que tomam decisões, que formam uma cultura.

E aí cabe a cada um e, claro, especialmente aos líderes, que têm uma influência, que possuem um impacto muito grande na organização, refletir e decidir que tipos de práticas a gente vai ter. 

Porque é nas decisões que a gente toma e no tempo que a gente escolhe investir em cada atividade que mostramos o que é importante.

Então há quem diga: “nossa, a gente super investe no desenvolvimento de pessoas aqui e tem um monte de curso ali que é só dar play”. Mas a pessoa não tem tempo de fazer aquele curso, e quando há espaço dentro da organização para isso, elas não podem ir porque “ah, eu tenho que entregar, entregar”.

E quando eu cuido disso? Saúde mental, isso a gente não fala porque “ah, é fraqueza”. 

Dependendo da cultura que construímos, acabamos não tendo verdade ali dentro. E quando não temos verdade, não trazemos o nosso melhor. 

Então todo aquele potencial maravilhoso do ser humano não é aproveitado. Então, eu acho que esse movimento da Grande Renúncia faz as empresas perceberem que estamos, cada vez mais, em um momento em que as pessoas estão pensando mais sobre suas vidas. 

Acho que a pandemia foi um momento muito drástico, que causou uma oportunidade de reflexão forçada para muita gente. Tiveram que ficar em casa, não tinham mais pra onde ir, o que fazer.

Tive que ficar eu comigo mesma ou eu com meu parceiro/parceira, a família. E tive que pensar sobre aquilo. E nessa reflexão, percebemos a necessidade de fazer mudanças. 

Então, se eu não tenho espaço na minha organização, com o meu time, com os meus líderes, para discutir sobre essas reflexões, para auxiliar no apoio e na construção de uma carreira que tenha sentido, eu vou perder essas pessoas. 

Fernando Penteado (Apresentador): Quando você fala sobre as pessoas buscarem reservas financeiras, obviamente dentro de suas possibilidades. Sobre buscar novas formações ou uma atualização e continuar se desenvolvendo.

Isso tem muito a ver com a busca pela autonomia em relação às suas carreiras. Ou seja, não se trata de delegar apenas para empresa essas oportunidades, mas isso também tem a ver com o desenvolvimento de projetos próprios, certo?

Então nesse sentido, eu vou puxar um pouquinho de um assunto que você trata bastante no livro. Inclusive, você traz muitos elementos, muitas ferramentas. Você é uma pessoa que gosta do método, não é?

Não no sentido da formalidade. Mas, do ponto de vista da estruturação para ajudar as pessoas a agirem de uma forma mais mediada, apoiadas nesse passo a passo. 

Então, no livro, você traz vários processos e ferramentas e eu queria ouvir sobre esse conhecimento de gestão de projetos. Porque são ferramentas para a vida, né?

Carol Shinoda: Capa do livro
Capa do livro Propósito de Vida: Clique na imagem e garanta seu exemplar!

Como você enxerga essas ferramentas de gestão de projetos no apoio ao desenvolvimento de pessoas? 

Como elas te apoiam? Não só como educadora, mas como uma pessoa que dá consultorias e tudo mais? 

Carol Shinoda: Para mim, gestão de projetos oferece uma forma de pensar e um conjunto de ferramentas que viabilizam a realização de nossos sonhos, nossos objetivos. Pessoais, profissionais, corporativos, da humanidade. 

Então são meios. No começo da minha trajetória eu achava que gestão de projetos era o meu propósito: oferecer ferramentas e conhecimento de gestão de projetos para que as pessoas pudessem realizar seus sonhos. Depois eu percebi que, na verdade, não era sobre isso. 

Mas era através destes meios. Então eles seriam ferramentas.

Eu acredito que tem uma parte muito importante da construção de nossa autonomia quando falamos: “eu vou definir esse passo a passo e eu vou fazer ele acontecer”. Muitas pessoas falam assim: “eu sou  do tipo que deixa a vida me levar”. Então eu falo: ”bom, mas, pra onde você quer que a sua vida te leve?”. Porque, senão, cadê você nessa história? 

Fernando Penteado (Apresentador): Quando você fala sobre “quem é que eu quero ter perto de mim, quem são essas pessoas?”. Como eu influencio e apoio essas pessoas e como elas também me apoiam e me energizam e apoiam minha felicidade no fim, e como a gente constrói essas trocas

Este também é um cuidado que você teve inclusive no desenvolvimento do livro, não é? Você teve esse interesse, esse cuidado de somar vozes. Tanto em referências bibliográficas, indicações de leitura, quanto também em relação aos colaboradores de algumas áreas do conhecimento, que têm interseção com o propósito de vida.

Que dica você dá para que as pessoas possam também somar vozes, assim como você fez, inclusive, na produção do livro?

Carol Shinoda: Nunca tinha pensado do jeito que você trouxe aqui agora. Que as pessoas podem tanto fazer parte da nossa vida significativa e nos energizar em direção ao nosso propósito, quanto participar da parte mais ativa da vida, de realizar em si o nosso propósito. 

Eu acho que é bem isso. Quando falamos das pessoas no âmbito dessa parte mais nutritiva: é importante termos pessoas que nos conhecem e nos lembram de quem somos

Quantas vezes eu estava fora do meu caminho, fingindo que eu estava super no meu caminho, mas não estava, e aí chega a minha irmã e fala: “Mas, Carol você sabe que esse caminho não é pra você, né? Quando é que você vai se mobilizar?”. 

Então, as pessoas às vezes nos ajudam a voltar para o caminho, a nos lembrar de quem somos. Às vezes, as pessoas nos ajudam a ver coisas maravilhosas que temos, e que às vezes é tão natural e tão óbvio que não percebemos.

Então, por exemplo, eu olho para você e falo: “gente, como o Fernando consegue abrir tantas frentes na mente dele e depois integrar todas?”.

Para mim isso é óbvio, e para você talvez não seja. Talvez você pense “ah, às vezes eu acho que eu sou tão confuso, porque eu penso tantas coisas”, em função daquele lado autocrítico que todos nós temos. Mas, para mim, é muito óbvio ver o seu valor. 

Então, quando temos pessoas queridas à nossa volta, elas nos ajudam como espelhos. Mostram nossa luz, essa essência. Mas elas também podem ser aquelas peças que faltam no nosso projeto. 

Creio que existe um caminhar nosso, como humanidade, quando descobrimos que existe o eu, que somos indivíduos. Mas chega uma hora em que começamos a ficar muito na era do self. Uma coisa meio vaidosa.

Então, acho que agora a gente está entrando mais no movimento do coletivo. Eu creio que quanto mais rápido isso acontecer, melhor.

Podemos nos conectar, fazer projetos juntos e ter muitos projetos coletivos, propósitos coletivos. Como grupos, como pessoas dentro de uma organização, como sociedade, como mundo.

Acho que existem evoluções. Tem uma parte que a gente luta para descobrir nosso projeto, nosso propósito individual e aos poucos a gente se abre e começa a encontrar pessoas na vida que querem caminhar com a gente.

E a gente quer caminhar com elas e formar novos propósitos, que sozinha eu não seria capaz de alcançar. Mas com a colaboração do outro, é possível. Então, acho que essas pessoas são elementos maravilhosos no nosso caminhar, na nossa construção. 

E quando fechamos o livro depois da leitura, como continuamos exercitando esse aprendizado? 

Carol Shinoda: Eu fecho o livro com esse último pedacinho do método, que tem a ver com sustentação.

Então passamos, em nosso livro, por:

  1. Autoconhecimento;
  2. Empatia;
  3. Experimentação;
  4. Visão de futuro e planejamento;
  5. Sustentação.

Por quê? Porque senão vira aquela história de votos de ano novo: todo mundo faz ao final do ano e depois de dois, três meses já nem nos lembramos do que queríamos.

Às vezes, a gente está com a cabeça enfiada dentro d’água, nadando, nadando, e esquece de tirar a cabeça pra fora d’água, respirar e olhar para onde estamos indo. E aí o que eu acho que é o segredo: rituais

Os rituais trazem essa oportunidade estruturada de termos momentos predefinidos de tirar a cabeça pra fora d’água.

Então, por exemplo, quando temos um método de gestão do tempo em que haja um planejamento de agenda

Quem faz planejamento de agenda, na verdade, está fazendo um planejamento de vida, porque a agenda é a vida. Então, se a gente for olhar a nossa agenda das últimas três semanas, vamos perceber para onde estamos caminhando.

Esse exercício informa o que estamos construindo, quais são os capítulos que a gente acabou de escrever da nossa história. 

As coisas só mudam se começarmos a fazer essa mudança hoje. Então acho que os rituais permitem que a gente tenha momentos predefinidos de tirar a cabeça pra fora d’água

Quando falamos em gestão do tempo, não é assim: “ah, minha vida está muito bagunçada, vou fazer uma organização da minha agenda”. Não. Para evitar que a sua vida fique bagunçada, toda segunda-feira de manhã, todo domingo à noite (cada um tem o seu dia) eu paro e me estruturo. 

Essa é uma chave. Por exemplo, todo domingo eu almoço com a família. Ou todo final de dia eu faço uma oração e agradeço o que aconteceu e desejo meu próximo dia. São momentos frequentes que a gente já preestabelece e que vai ser um momento de reflexão.

Tem gente que escreve todo dia, de manhã, páginas matinais. Ao escrever, se conectam com quem são e com o que estão fazendo. Então, eu desejo de verdade que quem estiver nos escutando inclua pelo menos um ritual na sua vida. 

Um ritual de reflexão, para que não precise que a vida traga o próximo podcast que fale sobre propósito e desenvolvimento humano para você parar para pensar em si mesmo. 

Então, escolha o seu método para garantir que você se cuide ao longo do seu caminhar, e não só quando você estiver em momentos de muito sofrimento e dor. 

Esperamos que tenha gostado de nossa entrevista com Carol Shinoda! Que tal conferir também nossa conversa com o autor Irineu Barreto, sobre a Anatomia da Desinformação?

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