O que é e como funciona a Gestalt-terapia?

Entenda o que é a Gestalt-terapia, como surgiu com Fritz Perls, seus princípios fundamentais, a diferença para a psicanálise e a TCC e mais!
Entenda o que é a Gestalt-terapia

A Gestalt-terapia, também conhecida como Abordagem Gestáltica, é uma psicoterapia de base fenomenológica e existencial que compreende o ser humano a partir de sua relação consigo mesmo, com o outro e com o ambiente. 

Criada por Fritz e Laura Perls, a abordagem foi desenvolvida a partir de influências da Psicologia da Gestalt, do Existencialismo, do Holismo e da Teoria Organísmica. Sua trajetória teve início na Europa, ganhou forma na África do Sul e se consolidou nos Estados Unidos, com a publicação de Gestalt-Therapy: excitement and growth in the human personality, em 1951.

No Brasil,chegou na década de 1970 e, desde então, passou a integrar a formação acadêmica e a atuação de profissionais da Psicologia. A seguir, entenda como essa abordagem se desenvolveu, quais são seus principais fundamentos e como acontece o processo terapêutico.

O que é a Gestalt-terapia?

A Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterapêutica que parte de uma visão relacional do ser humano. Segundo as pesquisadoras Cristiane Ferreira Esch e Ana Maria Jacó-Vilela (2019), nessa perspectiva, a pessoa não é compreendida de forma isolada, mas a partir da relação que estabelece com o ambiente e das condições em que sua experiência acontece.

Um dos conceitos centrais dessa abordagem é o campo organismo-ambiente. A experiência humana acontece na fronteira entre a pessoa e o mundo, em uma relação de influência mútua. Por isso, aspectos físicos, sociais, culturais e históricos integram esse campo e não devem ser analisados separadamente.

Essa compreensão também faz com que a Gestalt-terapia não concentre a necessidade de mudança exclusivamente no indivíduo. Ao considerar a interação entre pessoa e sociedade, a abordagem leva em conta as condições e exigências do ambiente que participam dessa experiência.

Assim, o olhar gestáltico considera a experiência em sua totalidade, levando em conta tanto o que acontece com a pessoa quanto a forma como ela estabelece contato com o mundo ao seu redor. Essa perspectiva relacional é um dos elementos que fundamentam a compreensão do processo psicoterapêutico nessa abordagem.

Como surgiu: Fritz Perls e as origens

Para compreender o surgimento da Gestalt-terapia, é importante olhar para o percurso de Fritz Perls e para as mudanças que ele propôs na maneira de compreender o sofrimento e o processo terapêutico.

Formado em Medicina e especializado em Psiquiatria, Perls iniciou sua trajetória profissional ligado à Psicanálise. Com o tempo, porém, passou a questionar alguns aspectos da teoria e da prática psicanalíticas, especialmente a ênfase na interpretação e na investigação do passado como caminho central para compreender a experiência do paciente.

Sua proposta foi se direcionando para uma abordagem que desse maior atenção ao que acontece no momento presente e na relação estabelecida durante o processo terapêutico. Em vez de interpretar a experiência a partir de categorias previamente estabelecidas, o terapeuta deveria acompanhar como a pessoa percebe, sente e atribui sentido ao que está vivendo.

Essa mudança também alterou o lugar ocupado pelo terapeuta. A relação entre profissional e paciente passou a ser compreendida como parte do próprio processo clínico, e não apenas como um meio para chegar a conteúdos internos. É nesse movimento que começam a ganhar forma alguns dos princípios que posteriormente caracterizariam a Gestalt-terapia.

A contribuição de Laura Perls foi igualmente importante nesse desenvolvimento. Sua experiência clínica e suas reflexões ajudaram a aprofundar aspectos fundamentais da prática gestáltica, especialmente a atenção à experiência concreta e à relação terapêutica.

Desse percurso nasceu uma proposta que buscava compreender a pessoa não a partir de partes isoladas, mas pela maneira como ela experimenta, estabelece relações e responde às situações que surgem em sua vida.

Os princípios fundamentais da Gestalt 

Na Gestalt-terapia, o processo terapêutico considera a pessoa em relação constante com o ambiente. O cuidado, nessa perspectiva, não se limita à atenção dirigida ao indivíduo, mas envolve compreender o contexto afetivo, físico, social e cultural no qual sua experiência acontece. A Doutora em Psicologia, Patricia Valle de Albuquerque Lima (2019), afirma que a abordagem parte da integração entre pessoa e meio e entende o cuidado como uma composição entre afeto, pensamento, ação e contextualização.

Um aspecto importante desse processo é o desenvolvimento do autossuporte. Segundo a autora, o amadurecimento envolve uma passagem gradual da dependência dos cuidados externos para uma capacidade cada vez maior de cuidar de si. Nesse sentido, a terapia busca favorecer a construção de autonomia e de recursos próprios para lidar com as situações vivenciadas.

Essa compreensão está relacionada ao conceito de autorregulação, segundo o qual a pessoa pode desenvolver maneiras próprias de responder às necessidades que surgem na relação com o ambiente. Quando esse processo de construção de autonomia é prejudicado, podem aparecer formas de funcionamento marcadas por dependência excessiva, repetição de ideias e atitudes que não foram verdadeiramente construídas pelo indivíduo 

Na prática clínica, portanto, o objetivo não é simplesmente oferecer respostas para os problemas apresentados, mas favorecer condições para que a pessoa desenvolva recursos para lidar com suas questões atuais e também com situações que possam surgir posteriormente. A autonomia, a capacidade de reflexão e a criatividade são, nesse sentido, elementos importantes para o desenvolvimento e para a construção do próprio suporte.

A relação terapêutica também deve considerar o contexto em que a pessoa está inserida. Isso significa que suas experiências não são compreendidas apenas a partir de características individuais, mas em articulação com as relações, condições sociais e demais elementos que participam de sua realidade. Dessa forma, o processo pode contribuir para que o indivíduo reconheça suas necessidades, desenvolva maior autonomia e encontre formas próprias de lidar com sua experiência.

Diferença entre Gestalt, psicanálise e TCC

Embora tenham uma relação histórica, Gestalt-terapia e Psicanálise seguem referenciais teóricos distintos. A diferença não está apenas nos temas abordados, mas na maneira como cada uma entende o sofrimento psíquico e conduz o trabalho clínico.

A aproximação entre as duas começa na própria trajetória de Fritz Perls. Antes da criação da Gestalt-terapia, Perls teve formação e atuação no campo psicanalítico. A partir dos anos 1930, passou a questionar e reelaborar alguns pressupostos da teoria freudiana. Os pesquisadores Marcos e Rosane a Müller-Granzotto afirmam que o movimento também incorporou referências da Psicologia da Gestalt, de Kurt Goldstein e do filósofo Salomon Friedlaender, contribuindo para a formulação do que posteriormente seria chamado de Gestalt-terapia.

Psicanálise

  • Inconsciente: ocupa uma posição central na compreensão do sofrimento psíquico.
  • Conflitos psíquicos: a investigação dos desejos e dos processos inconscientes é parte importante do trabalho.
  • História do sujeito: experiências anteriores são consideradas para compreender seu funcionamento e os conflitos que vivencia.

Gestalt-terapia

  • Experiência presente: a atenção se volta para aquilo que emerge na situação vivida e para a forma como a pessoa estabelece contato.
  • Relação indivíduo-ambiente: o contexto e a maneira como o sujeito se relaciona com o ambiente são importantes para compreender sua experiência.
  • Awareness e modos de contato: ajudam a observar o que acontece na experiência atual e como a pessoa se relaciona consigo, com os outros e com o ambiente.

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

  • Pensamentos e comportamentos: investiga como pensamentos, emoções e comportamentos se relacionam e podem contribuir para o sofrimento.
  • Padrões de pensamento: trabalha com a identificação e a avaliação de pensamentos e crenças que influenciam a maneira como a pessoa interpreta as situações.
  • Estratégias terapêuticas: utiliza técnicas estruturadas para desenvolver formas mais adaptativas de lidar com situações, emoções e comportamentos.

Isso não significa que uma abordagem considere apenas o passado, outra somente o presente e a terceira apenas os pensamentos. Na Gestalt-terapia, acontecimentos anteriores podem ser trabalhados quando aparecem na experiência atual; na Psicanálise, a história do sujeito é investigada em articulação com os processos inconscientes; e, na TCC, experiências passadas podem ser consideradas na compreensão de padrões cognitivos e comportamentais atuais.

Portanto, a diferença entre Gestalt-terapia, Psicanálise e TCC não se resume ao período da vida para o qual cada uma olha. As três apresentam concepções diferentes sobre o funcionamento psicológico e utilizam recursos distintos no processo terapêutico, ainda que possam compartilhar determinados temas e objetivos clínicos.

Para quem a Gestalt-terapia é indicada?

A Gestalt-terapia pode ser indicada para pessoas que estejam vivenciando diferentes formas de sofrimento psíquico ou enfrentando situações que dificultem sua relação consigo mesmas, com outras pessoas e com o ambiente. A indicação e a condução do processo, porém, dependem da avaliação do profissional de Psicologia.

Entre as demandas que podem chegar ao consultório estão ansiedade, dificuldades nos relacionamentos, conflitos pessoais, mudanças importantes de vida, questões relacionadas à autoestima e dificuldades na forma de lidar com emoções e necessidades.

No caso da ansiedade, a perspectiva gestáltica considera a maneira como a pessoa estabelece contato consigo mesma e com o ambiente. Os estudiosos Machado, Silva e Lucas explicam que, em situações de ansiedade, pode ocorrer uma ruptura da awareness, fazendo com que o indivíduo se afaste do momento presente e concentre sua atenção em situações que ainda podem acontecer.

Nesse contexto, o processo terapêutico pode favorecer a percepção de pensamentos, emoções, sensações e necessidades que aparecem no momento vivido. O estudo “A ansiedade na clínica gestáltica” também destaca a importância de recursos como presença e auto-observação para favorecer o contato da pessoa consigo mesma e com o mundo ao seu redor. 

Dessa forma, a Gestalt-terapia pode contribuir para ampliar a consciência sobre a própria experiência e sobre os modos de estabelecer contato, favorecendo novas possibilidades de lidar com situações que geram sofrimento.

A abordagem, entretanto, não deve ser considerada uma solução única para todos os casos. Quando o sofrimento é intenso, persistente ou provoca prejuízos significativos na vida cotidiana, é importante buscar avaliação de um profissional qualificado para compreender a demanda e indicar o acompanhamento mais adequado.

Como é o mercado de trabalho para psicólogos nessa abordagem?

A Gestalt-terapia pode orientar diferentes possibilidades de atuação para psicólogos que desejam trabalhar na área clínica. No Brasil, a formação específica na abordagem ocorre por diferentes caminhos, incluindo cursos de especialização, estudos teóricos e supervisão clínica, que contribuem para a construção da prática profissional. 

Segundo autores da área, a formação do Gestalt-terapeuta envolve mais do que o domínio de conceitos teóricos. O processo também contempla o desenvolvimento da capacidade de compreender a experiência clínica e de utilizar os fundamentos da abordagem na relação com o paciente.

Na prática, o psicólogo pode atuar com diferentes públicos e demandas, desde que esteja devidamente habilitado e tenha formação compatível com o trabalho realizado. A especialização em Gestalt-terapia pode, nesse sentido, representar uma possibilidade de aprofundamento da formação clínica e de construção de uma identidade profissional alinhada à abordagem.

A inserção no mercado, porém, não depende apenas da escolha de uma abordagem psicoterapêutica. Formação continuada, supervisão, experiência clínica e atualização profissional são aspectos importantes para o desenvolvimento da carreira.

Assim, para quem se identifica com os fundamentos da Gestalt-terapia, investir em formação específica pode ser um caminho para aprofundar conhecimentos e qualificar a atuação profissional.

Gestalt-terapia na obra de Fritz Perls

Para quem deseja conhecer mais profundamente os fundamentos e a aplicação da Gestalt-terapia, uma referência importante é o livro A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, de Fritz Perls.

Considerada uma obra clássica de Fritz Perls e uma referência nos cursos de Psicologia, o livro reúne reflexões fundamentais para compreender os princípios que sustentam a abordagem gestáltica e sua maneira de olhar para a experiência humana.

Na obra, Perls apresenta uma perspectiva que valoriza a experiência concreta e os problemas vivenciais e relacionais no aqui e agora. A Gestalt-terapia é apresentada como uma abordagem voltada à ampliação da compreensão que a pessoa tem de si mesma, à experimentação e à possibilidade de mudança.

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