Autoridade: Entenda por que as mulheres não são levadas a sério como os homens

Neste artigo, focaremos na lacuna de autoridade ocasionada pela desigualdade de gênero. Saiba como ela pode ser desconstruída!
autoridade: mulher em escritório utilizando computador

Autoridade é o mesmo que poder. O termo vem do latim (auctoritate) e remete à base de qualquer tipo de organização ou relação estabelecida a partir de hierarquia. Ou seja, há subordinados que prestam contas a um indivíduo ou instituição, que detém a autoridade.

Neste sentido, o conceito pode englobar desde o poder familiar, exercido pelos pais ou responsáveis sobre um filho, à autoridade exercida por um líder religioso sobre os fiéis ou por uma empresa, geralmente na figura de um líder, sobre os seus colaboradores.

Em uma perspectiva mais ampla, podemos falar ainda sobre a autoridade exercida pela própria legitimidade do sistema democrático, a partir das eleições. 

Neste artigo, focaremos especificamente na lacuna de autoridade ocasionada pela desigualdade de gênero. Você verá como ela impacta as mulheres em diferentes âmbitos e o que pode ser feito para desconstruí-la.

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Quais são os três tipos de autoridade?

Como explicamos no início deste artigo, autoridade é sinônimo de poder. Diante disso, cabe entendermos que o poder é classificado e entendido de maneiras diversas em nossa sociedade, de acordo com a forma como ele é exercido e o meio em que está instalado. 

O filósofo político italiano Norberto Bobbio caracterizou o poder nos seguintes tipos:

  • Poder econômico: exercido por aqueles que possuem propriedade privada. Ou seja, que têm terras, dinheiro e bens e, por isso, exercem influência sobre quem não têm essas posses;
  • Poder ideológico: exercido por aqueles que podem criar e influenciar as massas com as suas criações, seja no âmbito midiático ou religioso. Comumente, os atores desse tipo de poder atuam em favor dos atores dos outros dois poderes, o político e o econômico;
  • Poder político: exercido por instituições oficiais, que estão ligadas ao Estado. Pode ser tanto legítimo, quando voltado à finalidade da vida política, quanto ilegítimo, quando usurpado para criar uma situação de dominação de classes ou pessoas.

Neste artigo, como apontamos mais acima, nos voltaremos à lacuna de autoridade relacionada ao gênero. Mais especificamente, sobre como as mulheres não são tão respeitadas e levadas a sério quanto os homens e sobre como isso impacta as suas vidas em diferentes frentes.

A jornalista britânica Mary Ann Sieghart se debruçou neste tema no livro A Lacuna de Autoridade, sobre o qual falaremos a seguir. 

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O que é a lacuna de autoridade?

A autora do livro A Lacuna de Autoridade, Mary Ann Sieghart, explica que as pessoas, independentemente do gênero, ainda não aceitam muito bem a ideia de que uma mulher tenha autoridade sobre elas:

“Pesquisas demonstram que esperamos que as mulheres sejam menos competentes do que os homens. A maioria de nós – homens e mulheres – ainda reluta em se deixar influenciar pela opinião das mulheres. E ainda resistimos à ideia de mulheres tendo autoridade sobre nós. Em outras palavras, ainda existe uma lacuna de autoridade entre mulheres e homens”.

Mary Ann Sieghart vai além e pontua que a lacuna de autoridade é a “mãe de todas as lacunas de gênero”. Em sua perspectiva, se as mulheres não forem levadas tão a sério quanto os homens, elas ganharão menos, serão promovidas com frequência menor e, naturalmente, avançarão menos em termos de carreira. Diante disso, terão ainda menos autoconfiança e acharão que têm menos direito ao sucesso.

Um dado curioso trazido por Mary Ann Sieghart é que a diferença entre o salário e as promoções recebidas por homens e mulheres é catorze vezes maior do que a diferença entre suas avaliações de desempenho. O motivo disso é que 70% dos homens atribuem mais crédito aos homens do que às mulheres por atingirem os mesmos objetivos.

A autora frisa que, em cargos de grande prestígio, que exigem alta especialização e capacidade de gestão sênior, quando mulheres e homens têm o mesmo desempenho, as mulheres ganham consideravelmente menos.

Ao mesmo tempo, Mary Ann Sieghart enxerga avanços quanto a este cenário. Contudo, eles acontecem ao mesmo tempo em que uma série de hábitos e ações adotados por todos nós no dia a dia contribui para perpetuar a lacuna de autoridade de que trata a autora.

“Finalmente estamos nomeando mais mulheres para cargos importantes e podemos sair às ruas para comemorar. Repreendemos o júri do Oscar por ignorar diretoras mulheres e nos empolgamos quando papéis importantes são escritos para mulheres. 

Porém, o que temos visto nos países mais economicamente desenvolvidos desde o movimento do #MeToo é uma espécie de feminismo da boca para fora. Ainda temos mais chances de seguir e retuitar homens do que mulheres no Twitter.

E também temos mais chances de – quando nos aproximamos de um homem e uma mulher juntos – nos dirigirmos primeiro a ele. Os homens ainda tendem a ignorar livros escritos por mulheres, apesar de as mulheres devorarem livros escritos por homens”, ela reflete.

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Como a lacuna de autoridade afeta as mulheres?

Segundo Mary Ann Sieghart, a lacuna de autoridade é reforçada de forma contínua, ao longo de toda a nossa vida:

“O problema é que o mundo que nos cerca ainda é moldado e liderado principalmente por homens. A maioria de nós cresceu vendo nosso pai trabalhando mais e ganhando mais do que nossa mãe. Vemos, em todas as esferas da vida pública, mais homens chegando ao topo e mais homens sendo citados como autoridades do que mulheres. 

Assistimos a muitos filmes, quase todos dirigidos por homens, nos quais os homens são os protagonistas e as mulheres não passam de meras coadjuvantes ou objetos sexuais, com os homens tendo duas vezes mais falas.

Ainda vivemos em um mundo no qual os homens têm a vantagem e se ajudam a subir na vida, de modo que não é surpresa que tenhamos internalizado a noção de que as mulheres devem de alguma forma ser inferiores e merecem menos respeito”, pontua a autora.

Avanços e desafios

Ela reflete que, estruturalmente, as coisas estão começando a melhorar. No entanto, ainda que as mulheres estejam finalmente sendo nomeadas para cargos importantes e até então ocupados apenas por homens, isso não impede que a sua autoridade seja contestada.

Para Mary Ann Sieghart, embora a mudança não esteja acontecendo de forma tão rápida a ponto de os homens se sentirem injustamente prejudicados, esta pode ser a impressão quando o privilégio masculino é questionado. 

“No entanto, assim como os homens tendem a achar que as mulheres estão dominando uma conversa quando elas só falam 30% do tempo, é comum eles acharem que as mulheres estão recebendo vantagens injustas quando elas só estão sendo tratadas, finalmente, com um pouco mais de igualdade”, afirma a autora.

Para escrever o livro A Lacuna de Autoridade, ela entrevistou cerca de cinquenta das mulheres mais poderosas, bem-sucedidas e respeitadas do mundo, a fim de retratar as experiências delas com este tema.

Diante dos relatos apresentados pela autora, chama a atenção o fato de que muitas dessas mulheres com quem ela conversou têm um histórico excepcional. Ou seja, elas tinham a convicção de que serem espetaculares no trabalho era a única forma de avançar profissionalmente

Ao contrário do que acontece com os homens, as mulheres que seguem carreiras especializadas dificilmente têm uma segunda chance. Por isso, não podem correr o risco de fracassar.

“Quando minhas entrevistadas chegaram ao topo do topo, algumas disseram que passaram a sentir-se muito mais protegidas de ocorrências claras da lacuna de autoridade. As pessoas começaram a ter mais dificuldade de desrespeitá-las ou menosprezar suas opiniões quando elas chegaram ao topo”, explicou Mary Ann Sieghart.

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Autoridade no mundo dos negócios

Você provavelmente já ouviu sobre a história da rainha Vitória, que reinou na Inglaterra por sessenta e quatro anos (183701901), período conhecido como “Era Vitoriana” e marcado por uma grande ascensão da burguesia industrial.

Bem, talvez esteja se perguntando: o que isso tem a ver com a presença das mulheres no mundo dos negócios?

O ponto é que, ao chegar ao topo do poder monárquico, o gênero a que a rainha Vitória pertencia não era tão relevante quanto o posto que ocupava. E, no livro A Lacuna da Autoridade, uma das entrevistadas de Mary Ann Sieghart fala sobre como o mundo dos negócios pode ser mais aberto para as mulheres quando elas finalmente chegam ao alto escalão:

“Anne Mulcahy sofreu um sexismo horrível ao galgar a pirâmide corporativa até o comando da Xerox. ‘Quando chega a CEO, é quase como se você se transformasse em um homem honorário. O cargo vem acompanhado de poder e fica mais difícil para as pessoas confrontarem suas opiniões, não lhe darem ouvidos ou serem desrespeitosas. É maravilhoso, não é?‘”. (destaques nossos)

Contudo, os dados mostram que as oportunidades de se “chegar lá” — sendo este “lá” o reconhecimento do trabalho das mulheres no mundo corporativo — ainda são bastante desiguais entre os gêneros.

A pesquisa “Women in the Workplace 2020” (“Mulheres no trabalho em 2020”, em tradução livre), que analisou cerca de 600 empresas e contou com a participação de 250 mil funcionários, mostrou que, para cada 100 homens promovidos a gerente, apenas 85 mulheres são promovidas. A lacuna é ainda maior para mulheres negras e latinas: somente 58 mulheres negras e 71 latinas são promovidas para cada 100 homens.

Diante disso, em 2020, as mulheres ocupavam apenas 38% dos cargos de chefia, enquanto os homens detinham 62%. Tal proporção se mantém, inclusive, em áreas dominadas por mulheres. 

Um exemplo é que, no Reino Unido, as mulheres representam 64% dos professores de ensino médio, mas somente 39% dos diretores de escola. Além disso, as diretoras ganham, em média, 13% a menos do que os homens que ocupam o mesmo cargo. Os dados são apresentados e discutidos por Mary Ann Sieghart em sua obra.

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Capacidade de liderança

Os dados acima espelham uma discrepância tão significativa que parecem, por si sós, questionarem a capacidade de liderança das mulheres. No entanto, as evidências indicam que as mulheres são líderes ainda melhores do que os homens.

Mary Ann Sieghart aborda uma meta-análise de 99 estudos, que descobriu que as mulheres eram consideradas líderes significativamente mais eficazes do que os homens, apesar de os líderes masculinos se autoavaliarem melhor.

“As mulheres se destacam especialmente na gestão de pessoas. Elas são melhores do que os homens na chamada liderança “transformacional”, quando os líderes orientam e empoderam os funcionários, os encorajam a desenvolver todo o seu potencial, conquistam sua confiança e permitem que eles contribuam com suas opiniões – em outras palavras, sendo líderes democráticas, e não autocráticas. 

Também há mais chances de elas recompensarem os funcionários pelo bom desempenho. Por sua vez, os homens são mais propensos a uma abordagem laissez-faire (ou seja, interferindo pouco no processo decisório), esperando que os problemas piorem antes de intervir e concentrando-se nos erros dos funcionários.

Esses estilos não promovem uma liderança eficaz, ao passo que os estilos transformacional e de recompensa o fazem”, aponta a autora. (destaques nossos)

Prova disso é que, durante a pandemia, as mulheres ocupavam apenas 7% dos cargos de liderança governamental do mundo. Ainda assim, quatro dos dez países que administraram melhor o cenário pandêmico eram liderados por uma mulher.

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Como superar a lacuna de autoridade?

Ao final do livro A Lacuna de Autoridade, Mary Ann Sieghart apresenta um verdadeiro guia com práticas que podem ser empregadas por pais, mães, parceiros, empregadores, instituições de ensino e outros atores sociais para ajudar a combater este fenômeno que afeta tão negativamente as vidas das mulheres.

Como falamos principalmente sobre a lacuna de autoridade observada em ambientes de trabalho, trabalharemos aqui algumas das dicas apresentadas pela autora para empregadores. Veja só:

  • Monitorar com muita atenção o progresso das mulheres em comparação com os homens na organização. Ela orienta que os dados sejam desagregados para incluir fatores interseccionais, como etnia, classe social, sexualidade e deficiência, uma vez que não é possível fazer nada sem conhecer os fatos;
  • Informar todos os gestores, por toda a organização, das desvantagens enfrentadas pelas mulheres, de forma que eles se responsabilizem pela eliminação desses obstáculos;
  • Dar atenção especial aos funcionários, independentemente do gênero, quando eles têm filhos. “Não presuma que vão querer desacelerar suas carreiras, mas, se for o caso, não os descarte para promoções quando quiserem retomar o ritmo de antes. Abra sua mente para acreditar que eles continuam comprometidos com o trabalho”, aconselha a autora;
  • Anunciar no anúncio de emprego que o salário é negociável, pois, assim, as mulheres serão encorajadas a negociarem;
  • Incluir mais de uma mulher em cada lista de seleção. “Estatisticamente, uma mulher que compete com três homens não tem absolutamente qualquer chance de ser contratada”, esclarece a autora.

A Lacuna de Autoridade: Bastidores da edição

Você já se perguntou como nasce um livro e por que uma editora aposta em um projeto específico? Tratando especificamente sobre a lacuna de autoridade, a obra chegou ao Brasil de uma forma bem particular, que envolveu diversas profissionais do gênero feminino. 

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1ª etapa: Descobrindo que o livro existe

A dica para o projeto veio de uma estagiária de outro selo da editora Saraiva, após ela assistir a um vídeo da advogada, apresentadora de TV e influenciadora digital Gabriela Prioli, em seu canal no YouTube. Eduarda do Prado Ribeiro, a estagiária em questão, compartilha como surgiu a ideia de realizar a indicação:

“Eu era nova no time da Saber, e tínhamos tido um evento interno que destacou a abertura que os colaboradores possuem para dar sugestões de obras que estivessem alinhadas com os nossos valores. 

Por coincidência, dias após a reunião, a Gabriela Prioli publica um vídeo que inicia com uma frase que chama muito a atenção: ‘É inacreditável pensar que as juízas da suprema corte americana são quatro vezes mais interrompidas do que os colegas homens’.

Parei tudo que estava fazendo e fui pesquisar sobre o tal livro. Quando eu vi, já estava enviando a indicação”.

2ª etapa: Avaliando e contratando o livro

Logo, a editora do selo Benvirá, Clarissa Oliveira, foi tentar descobrir quem representava os direitos estrangeiros do livro e começou a ler o manuscrito. Olha só um trechinho (traduzido) do e-mail que ela enviou para a agente da autora, expressando o desejo de editar a obra no Brasil:

“É com alegria que escrevo para dizer que estamos interessados em fazer uma oferta para The Authority Gap. O tema é muito caro para nós e estávamos mesmo buscando o livro certo para contratar — acreditamos que seja esse! Ele tem um equilíbrio perfeito de jornalismo, ativismo, conhecimento acadêmico e dicas práticas.

Fechado o acordo de publicar o livro no Brasil, ele precisou ser traduzido para que, só então, pudesse ser diagramado, revisado, impresso e distribuído.

3ª etapa: tradução e preparação editorial 

Realizada a tradução, pela tradutora Cris Yamagami, a obra passou por uma leitura minuciosa, chamada “preparação de texto”. Dá uma olhada no depoimento dado pela preparadora do livro:

“Como mulher, foi muito impactante ver sistematizados estudos tão consistentes que comprovam os vários tipos de injustiça que sofremos em todas as esferas da vida, era como se aquele sentimento de incômodo, que muitas vezes não conseguimos colocar em palavras, fosse destrinchado.

Como profissional do livro, me orgulho de fazer parte de um título que apresenta de forma articulada e acessível um debate tão necessário e urgente para toda a sociedade”.

4ª etapa: Produção editorial 

Por fim, a obra foi para a etapa de produção editorial, em que há a sua diagramação, revisão e, claro, criação de uma capa para o livro. Deixamos aqui também o depoimento de sua produtora editorial, Rosana Fazolari:

“Produzir esta obra me levou a uma viagem no tempo. Relembrar mulheres fortes da minha família de imigrantes que precisaram se adaptar ao novo mundo em que chegaram, da luta de mulheres que ficaram na história para que chegássemos onde estamos. 

Ao mesmo tempo, deixa muito claro que ainda temos muito pela frente na luta por uma sociedade igualitária e não podemos nos acomodar”.

Esperamos que este artigo tenha estimulado você a se aprofundar no tema da autoridade e em como impacta as mulheres. Aproveite para ler também o nosso artigo com 10 livros de desenvolvimento pessoal para presentear. Confira!

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